Uma das coisas mais comuns quando se está na faculdade é a expressão “vestir a camisa da empresa”. Dentre muitas dessas frases, muitas utilizadas sem a menor parcimônia, essa se destaca como uma das mais controversas. Como “vestir a camisa” de uma empresa que nem sempre tem importância para mim, a não ser por ser quem me paga?
É, caro leitor amigo… é complicado. Eu me lembro de ter sido muito crítico dessa expressão em meus tempos de FATEC, principalmente nas aulas de Planejamento Estratégico e algumas outras bastante corporativas. Eu pensava: por que eu preciso vestir essa camisa se tudo o que querem de mim são resultados? Demorei um tempo para entender essa pergunta e enxergá-la com outros olhos. E vou explicar por quê.
Eu trabalho há cerca de um ano em meio no Santuário Nacional de Aparecida, no estado de São Paulo. Atualmente, atuo na Comunicação Institucional, cuidando de projetos de Marketing e outros projetos especiais. O Santuário é um grande centro de peregrinação e todos os anos, milhões de pessoas passam por aqui em busca de muitas coisas, sejam elas espirituais ou não.
Mas o Santuário também é uma empresa e funciona como qualquer outra de qualquer outro ramo, com setores comuns, folha de pagamento, horários, crachás, chefes e regulamentos. De acordo com matéria publicada no jornal Valor Econômico, edição de 15 de Junho de 2010, o Santuário tem cerca de 1.300 funcionários o que representa uma folha de pagamento de aproximadamente R$ 1 milhão. São setores como marketing, engenharia, jurídico, contabilidade, imprensa, comunicação institucional, entre outros, que recebem sempre o salário em dia e tem alguns benefícios, como restaurante.
E junto a isso entram os departamentos mais específicos, como a pastoral, acolhimento e etc. Tudo isso para fazer funcionar a um estacionamento com vagas para mais de 3 mil carros e 2 mil ônibus, um shopping com cerca de 330 lojas (com grandes nomes como McDonalds, Bobs, Boticário, etc.), além de estrutura gigante que recebe até 170 mil pessoas em um só dia.
Enfim, com as devidas peculiaridades de um centro católico, o Santuário Nacional funciona como qualquer empresa funciona. E eu sou um funcionário como qualquer outro (no sentido empregatício da expressão). Assim, mais de uma vez depois que entrei aqui, peguei-me refletindo sobre como vestir essa camisa?
Seria fácil se eu fosse católico fervoroso, profissional antigo ou sem ambições. Mas pelo contrário, sou católico mediano, recém lançado ao mercado de trabalho e com ambições realmente fervorosas! Como então me manter fiel ao plano de acolhimento, gentil aos visitantes e dedicado em acordar cedo, viajar 130 quilômetros por dia e enfrentar as costumeiras 9 horas em trabalho?
A resposta para mim vem de uma maneira relativamente simples. O que me motiva, confesso, não é tanto minha fé, embora eu a tenha em condições aceitáveis. Mas é ver a fé das pessoas que acreditam em tudo isso que está ao meu redor. Ver o olhar de quem chega aqui pela primeira vez, que incrivelmente é parecido com o olhar de quem chega aqui pelo 40º ano consecutivo. Um olhar de admiração, de necessidade e apego. E eu me solidarizo com isso!
E, uma vez que eu tenha assumido a responsabilidade de partilhar desse acolhimento, tais atos servem como combustível para enfrentar dias de estresse e cansaço.
Em outras palavras e resumindo, eu creio que consigo vestir a camisa porque encontrei o motivo certo pelo qual estou aqui! Não é pelo dinheiro, porque ele vai embora em média após 20 dias. Não é pela proximidade de casa, porque como antecipei, moro relativamente longe. É porque encontro sentido no que faço toda vez que encontro com um romeiro (como são chamados os visitantes do Santuário) com olhar de esperança. No dia em que esse sentimento não existir mais, talvez seja a hora de pensar que essa minha missão aqui já foi cumprida. Mas até lá, toda vez que trabalho em algum projeto, é nesse público que foco minhas ações.
Tá, Fernando! Isso tudo é muito bonito mas parece altamente direcionado ao seu tipo de trabalho, que tem certa relação com acolhimento. Eu trabalho em um lugar que só quer dinheiro e onde eu não vejo mais ninguém, senão uma tela de computador e meu supervisor insensível. Isso tudo não tem nada a ver comigo!
Bem, hoje, depois desse tempo, eu discordo!
Lidero uma equipe e preciso de cada uma dessas pessoas! Cada uma das pessoas acima de mim precisa de cada uma das pessoas que estão abaixo delas. E assim segue até chegar ao final da cadeia que identifica você como, ao seu modo, uma pessoa importante! Para alguém, em algum lugar da cadeia de suprimentos de sua empresa, o seu serviço é importante!
Alguém irá precisar do resultado do processo do departamento que você trabalha. Soa como auto-ajuda, mas é verdade. E é uma verdade que precisa estar dentro de você, porque não existe professor ou gerente no mundo que vá te convencer disso.
E se você realmente não entender que é importante e que suas ações são importantes, então mais cedo ou mais tarde, você terá que enfrentar a frustração: o salário não será o quanto você precisa; as oportunidades não virão do jeito que você acha que merece; os desafios não são tão grandes quanto você acha que consegue vencer… Essas e outras coisas que acontecem na vida de todo mundo eventualmente.
Por isso, e finalizando esse post gigantesco, sinto-me à vontade em afirmar que a melhor forma de vestir a camisa de seu trabalho é fazê-la você mesmo!
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